Tudo Sobre Fotografia

Comparativo: 50mm full-frame x 35mm cortado

101

Afinal, elas são equivalentes ou não?

Uma das dúvidas mais frequentes de quem entrou agora no mundo das DSLRs (câmeras reflex digitais) é relativa à equivalência entre duas combinações de sensores e lentes que proporcionam aquilo que chamam de “normal”: lente 50mm em sensor full-frame e lente 35mm em sensor “cortado”.

Ângulo de visão e perspectiva

“Normal” é definido popularmente como uma distância focal de lente fotográfica que produz um ângulo de visão similar ao da visão humana. Esse conceito é um tanto subjetivo. A visão humana tem quase 180 graus de amplitude total na horizontal e 100 na vertical; a visão binocular – isto é, o campo coberto ao mesmo tempo pelos dois olhos – é de mais ou menos 120 graus na horizontal. Uma lente de 50mm em sensor full-frame proporciona um ângulo de visão de 40 graus na horizontal e 27 na vertical. Bem mais estreito. Por que os números parecem não combinar?

A visão humana tem acuidade variável, sendo muito nítida no centro e diluindo-se progressivamente na periferia, até sumir em limites que conscientemente não percebemos. Ao visualizarmos uma cena (ou a fotografia de uma cena), nossos olhos fazem uma “varredura”, pulando de um ponto a outro constantemente e compondo a imagem mental a partir desses saltos. Esse funcionamento da visão nos impede de definir o campo de visão útil em números absolutos.

Uma definição melhor para “normal” é de uma distância focal que produz uma perspectiva que parece natural aos nossos olhos. Cada lente tem uma perspectiva inerente e relacionada à sua distância focal. Lentes longas – telefotos – “achatam” os planos, e lentes curtas – grande-angulares – os separam mais. Um bom exemplo vemos abaixo, em que uma mesma cena foi fotografada com três distâncias focais bem diferentes, mantendo-se igual o corte do assunto – as três câmeras sobre a mesa –, o que exigiu mudar a distância entre nossa câmera e os objetos. Veja como mudam não apenas a relação espacial entre os objetos e o fundo, mas também a relação espacial entre os detalhes dos objetos.

28mm (grande-angular)

50mm (normal)

120mm (telefoto)

Portanto, a normal é usualmente definida por dois critérios interrelacionados, mas que expressam efeitos distintos: campo de visão e perspectiva.

Só que ainda tem uma pegadinha aí. Uma lente de 50mm em uma câmera compacta comum tem um ângulo de visão equivalente ao de uma 280mm em full-frame – ou seja, nela a 50mm é uma supertele. O tamanho do sensor é o diferencial aí e precisa entrar em consideração.

Explicando do começo: full-frame significa sensor com a mesma medida de um fotograma de filme de 35mm (36×24mm). Ele é referência por ser o padrão de filme historicamente mais relevante. Sensores “cortados” não são sensores com defeito, mas sensores com dimensões menores, expressas em relação ao full-frame. Assim, a Canon usa sensores de dimensão APS-C, de dimensões 1,6 vezes menores que as do full-frame, e a Nikon usa sensores de dimensão DX, 1,5 vezes menor que as do full-frame. (DX é um nome criado pela Nikon; outras marcas que usam o mesmo formato, como Sony, Samsung, Pentax e Sigma, usam o nome APS-C, da mesma forma que a Canon.) Esses números multiplicadores são denominados fatores de corte

Câmeras compactas e celulares usam sensores em diversos tamanhos consideravelmente menores, e estes quase sempre utilizam a proporção horizontal/vertical 4:3 e não a a proporção 3:2 usada pelos sensores das DSLRs.

A fim de poder comparar os ângulos de visão de lentes acopladas a sensores diferentes, expressamos sua distância focal equivalente, ou seja, a distância focal em full-frame que daria o mesmo ângulo de visão. A fim de compensar a mencionada diferença na proporção, o fator de corte é expresso em função da diagonal e não da largura ou da altura. 

Por que 50mm?

Tradicionalmente diz-se que a normal mais exata para full-frame é 40mm. Então, por que a popular lente de 50mm é considerada normal, e não 40mm? Oskar Barnack, inventor há 90 anos da câmera de filme de 35mm, a primeira Leica, preferiu começar com uma lente de 50mm por causa de limitações na engenharia óptica. De qualquer maneira, 50mm na Leica foi considerado perfeitamente confortável por legiões de fotógrafos. A convenção acabou “pegando” a ponto de ainda hoje a lente fixa mais simples, comum e barata para DSLRs ser a 50mm, refletindo essa herança que remonta à primeira câmera de filme de 35mm. Historicamente as câmeras reflex full-frame sempre foram desenhadas considerando a 50mm como lente básica. E, de fato, era essa a lente que vinha com as câmeras antes de se popularizarem as zooms. 

Lentes mais curtas ou mais longas para DSLRs, como a 35mm e a 85mm, são consideravelmente mais complexas em sua construção interna. A Nikkor 50mm 1.8 usada em nosso teste possui 6 elementos em 5 grupos, enquanto a Canon 35mm 1.4 L possui 11 elementos em 9 grupos, incluindo um asférico. A razão disso é que a 35mm tem o desenho análogo ao de uma teleobjetiva, a fim de conciliar o campo de visão com a distância de flange e as dimensões do sensor. Isso, por sua vez, exige o uso de elementos adicionais para controlar aberrações. A tarefa é muito mais simples na 50mm, cujo desenho “gaussiano duplo” remonta a dois séculos de história.

Você pode perfeitamente escolher outra distância focal favorita de trabalho, de acordo com sua preferência e necessidades. Nada está escrito em pedra. Pegue sua zoom e experimente.

As câmeras e lentes

Canon EOS 7D
Sensor APS-C – 22,3 x 14,9mm (fator de corte 1,6x), 18MP
Preço: US$ 1500 (B&H)

Canon 35mm f/1.4 EF L USM
Ângulo de visão (diagonal): 63,1° em full-frame, 43,2° em APS-C
Preço: US$ 1255 (B&H)

Nikon D700
Sensor FX – 36 x 23,9mm (full-frame), 12MP
Preço: US$ 2700 (B&H)

AF Nikkor 50mm f/1.8D
Ângulo de visão (diagonal): 46° em FX, 31° em DX 
Preço: US$ 120 (B&H)

Os dois combos são muito desnivelados no preço individual dos componentes, mas notavelmente similares no valor final. Há uma intenção implícita nisso que é a de avaliar também se a prioridade no investimento deve ser na lente ou na câmera. Você poderá se surpreender com nossas descobertas.

A fim de nivelar a lente Nikkor e a Canon na comparação direta, em cada cena fotografada utilizamos as duas sempre com as mesmas aberturas, a partir de f/1.8. Em contrapartida, o sensor da Canon produz mais pixels que o da Nikon, mas isso não tem impacto na aparência das amostras aqui apresentadas.

Assuntos distantes

Saímos para fotografar cenas de rua em plena luz do dia, fotografando exatamente do mesmo ponto e com o mesmo centro visual, com aberturas de f/8 a f/11 e buscando fazer as câmeras concordarem quanto à medição da luz. Não repare em eventuais diferenças na coloração: o que estamos buscando ver aqui especificamente é o quanto as fotos se assemelham em termos gerais e não características como saturação, contraste e balanço de brancos, que podem ser editadas manualmente no RAW até que pareçam completamente idênticas.

Note que o combo da Canon tem um ângulo de visão (43,2°) mais estreito que o combo da Nikon (46°). A equivalência exata em distância focal para a 35mm em APS-C seria 56mm, não 50mm. Por isso, as imagens da Canon apresentam, de forma geral, um campo reduzido. A diferença seria quase totalmente inexistente se a câmera com a lente de 35mm fosse uma Nikon de sensor DX, pois ele é 6,7% maior que o APS-C da Canon. Todavia, a diferença no enquadramento só se nota claramente em algumas das imagens, não em todas. É até notável o quanto elas conseguem ser parecidas e não diferentes. 

Portanto, a primeira parte da questão está respondida: sim, dá para obter uma equivalência convincente entre as duas combinações de lentes e sensores, desde que os assuntos sejam relativamente distantes e as aberturas pequenas.

Se, após fazer a foto em 50mm com full-frame, nos aproximássemos do assunto a fim de ele ocupar a mesma área do quadro em 35mm com APS-C (a exemplo do fizemos nos três exemplos que abrem este artigo), isso faria os planos da cena se separarem mais. Porém, quando encurtamos a lente e usamos um sensor proporcionalmente menor sem mudar a nossa distância para o assunto, as diferenças na geometria da cena só aparecem a distâncias relativamente pequenas, como em retratos.

Assuntos próximos

Aqui a personalidade das lentes começa a aparecer mais, porque trabalhamos com aberturas maiores. Este segundo grupo de fotos foi feito a distâncias menores – a 4 metros da árvore e a 2,5 metros do modelo, novamente sem mudar a distância da câmera ao assunto. Como foi comentado há pouco, se mudarmos a distância para o modelo a fim de manter a área que seu rosto cobre no quadro, as feições serão alteradas.

No que toca à profundidade de campo também há uma diferença importante. Para uma mesma abertura nas duas lentes (no caso, f/1.8), o conjunto full-frame produz uma profundidade de campo mais rasa, acentuando o desfoque do fundo. A razão disso é que a abertura física da lente em 50mm é maior que a correspondente na 35mm. Pelo mesmo motivo, a lente admite mais luz e permite tempos de exposição mais curtos. Para obter profundidade de campo e tempo de exposição similares aos da f/1.8 na 35mm, ela deve ser aberta para f/1.4 – em torno de um ponto de diferença.

Este último grupo de imagens, feito ainda mais de perto – a 40cm das flores e 80cm da mesa –, serve para avaliar a diferença na aparência do desfoque, chamada coloquialmente de bokeh (boquê). A avaliação naturalmente é subjetiva, e como lentes diferentes produzem desfoques diferentes, a escolha de uma lente deve considerar essa característica estética, que não pode ser medida em laboratório. 

Como era de se prever, a 50mm produz mais desfoque na mesma abertura em relação à 35mm. Mas é um desfoque mais “sujo” em fundos com texturas complexas, enquanto a 35mm gera um desfoque suave e cremoso, que chama menos a atenção para si. Por outro lado, fontes de luz pontuais (lâmpadas distantes) são mostradas pela Nikkor 50mm como círculos de luz com bordas brilhantes muito marcadas, cujo lado mais brilhante aponta para o centro da imagem, enquanto a Canon 35mm produz círculos homogêneos e com borda suave, tendendo fortemente a colorir essas bordas de magenta quando estão à frente da zona em foco e de verde quando estão além – um fenômeno comum em muitas lentes, mas pouco visível na 50mm.

Outras objetivas têm construções diferentes e apresentam outros efeitos visuais, especialmente em aberturas menores que a máxima, quando os círculos adquirem o formato da abertura definido pelas lâminas móveis do diafragma. A decisão de qual dos efeitos agrada mais cabe a você.

Uma vantagem interessante de trabalhar com a full-frame é o o rendimento luminoso de aproximadamente um ponto a mais com a 50mm em relação à 35mm na mesma abertura em APS-C, o que é um fator a se considerar na fotografia em baixa luz.

Outra coisa que essa comparação informal nos ensina é a questão do preço. Ambos os combos são desiguais nos preços dos corpos e lentes, porém similares na soma final. A lente básica de 50mm perde a disputa direta com a 35mm topo de linha, ainda que não por tanta diferença de qualidade quanto a espantosa diferença de preço daria a entender. Existe uma variedade de lentes de 35mm mais baratas com aberturas máximas mais fechadas que f/1.4, tanto para Canon quanto para Nikon, mas é possível afirmar de maneira geral que o conjunto da câmera mais barata com a lente mais cara pode oferecer resultados melhores que a lente mais barata com a câmera mais cara. Essa é uma conclusão a que os profissionais chegam repetidamente em seu trabalho: corpos de câmeras duram menos que lentes e são menos decisivos na qualidade final do trabalho. Eis um ponto a ponderar da máxima importância para quem está querendo entrar agora no mundo das DSLRs.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.